Sou espalhafatosamente discreta no que toca ao que vai cá dentro. Digo isto porque no meu dia-a-dia, no meio da alegria, da simpatia, do envolvimento, do entusiasmo por tudo o que parece que me pode fazer pulsar mais um bocadinho, ninguém sonha, ninguém desconfia, ninguém conta as dores que por cá passaram. E quando, de vez em quando caio, a incredulidade é a reacção comum de todos. Ainda sou aquela que (parece que) nunca quebra. Mas este ano eu assumo, quebrei muito. E tenho saudades de muitas pessoas. Perdi muitas pessoas este ano. Foram mais aquelas que perdi, do que aquelas que segurei cá. Não sei bem porquê. Sei que foi culpa minha deixar tudo voar... Não quis segurar ninguém porque nem a mim me segurava bem. Às vezes nos momentos de maior golpe de vazio apetece-me resgatar toda a gente, chamar toda a gente, acordar toda a gente, mas não o faço, porque se cresce melhor sozinha.
Ganhei coisas, claro. Profissionalmente apareceram coisas. Não fui condenada a um ano de sofá como tanto temia. Fui elogiada. Tenho sido elogiada. Envolvi-me em novos projectos, enchi-me de coisas, e mais coisas, iludida de que com coisas me enchia de vida, mas a verdade é que queria enganar o tempo: queria despejar-me de tempo para pensar em mim. Pensar em coisas, fossem quais fossem, seria mais produtivo para recalcar. E foi produtivo porque as coisas em que me envolvi são sérias e fazem de mim uma pessoa geralmente apreciada na comunidade. Mas a verdade é que continuo a sentir-me alforreca - não é que as alforrecas não tenham vida, mas a mim sugere-me sempre uma coisa que pulsa desinteressadamente com a maré e abana ali só o esqueleto de vez em quando. E não gosto de me sentir alforreca, porque vocês sabem que sou pessoa de acção.
De resto saibam que não há motivos para eu não estar bem. A verdade é que com razão, ou sem ela, termino o ano (este ano entrei precocemente em balanços, eu sei!) com a sensação de que o detestei e com vontade de lhe espetar com a porta de encerramento bem forte na cara. Mas pronto, isto é só um momento de pieguisse a que me dei ao luxo - porque até dizem que um blog pode ser um bom divã - que vai passar já. É um desabafo tê-pê-émico, apesar de não estar nessa altura do mês, ou um estado temporário induzido pela música que estou a ouvir que puxa às angústias filosófico-existencias, e daqui a nada, estou bem. Prometo. A mim mesma em primeiro lugar que gosto muito desta criatura que cá habita.
tempo a mais não é bom
mostra o que eu não devo ver e eu
tento então não olhar
mas o que eu não queria ver
sou eu

