E dizia a minha irmã na manhã de Páscoa - "Não sei porquê, mas a Páscoa parece-me sempre uma festa triste". Eu lá pensei que não tinha grande razão de ser e que até, do ponto de vista religioso, a ressurreição de Cristo tratava-se de um momento mais importante e mais feliz do que o Natal. Claro que poupei a minha irmã desta palestra porque no tocante a religião somos bem diferentes e tudo o que eu ia ouvir em resposta com esta explicação era "Não tem nada a ver com isso da Igreja!".
A verdade é que talvez saiba, melhor do que gostaria e mais além do meu pensamento filosófico-religioso, o porquê da Páscoa ser uma festividade triste. Morreu muita gente da família nesta época. Especialmente, muita gente que não era suposto ter morrido quando morreu ou como morreu - e, na verdade, talvez nunca exista, para quem gosta, um momento em que seja suposto ou uma forma suposta. Por isso é que os "Foi melhor assim!" ou "Foi na hora certa..." são coisas que nunca fazem um sentido integral apesar de ficar bem dizer ou pensar. E na Páscoa, não é raro olhar para alguém, e sem porque sim ou porque não, ver olhos humedecidos. Repara-se e olha-se noutra direcção. Quanto muito há um sorriso terno. Mas ninguém faz perguntas. Já se sabe. É mesmo nestas alturas que se repara, ainda mais, que falta ali alguém. É nestas alturas que, sim, no meio dos amplos laços que nos unem - evidentes enquanto se enumera ao padre quem são netos, sobrinhos, sobrinho-netos, primos em primeiro, segundo e terceiro grau - constatámos que somos uma família linda mas, ao mesmo tempo, lembrámos, mesmo quando não se fala disso, que já fomos mais e melhores. E é nestas alturas que temos ainda mais saudades de quem já não está.
É um dia muito feliz de reunião familiar, com muitos risos e brincadeiras, mas lá por dentro, no que ninguém sabe bem ou procura não explicar, triste.