Assumi que tudo ficaria na mesma. É apenas uma pessoa que sai. Com a pessoa, no entanto, saem gestos quotidianos, saem elementos de rotina, que não são só isso, elementos casuais e básicos, mas parte do que sou. Por isso, penso, é normal que às vezes ainda me sinta um bocadinho às aranhas porque começa um novo eu, que a pouco e pouco se vai desprendendo do que era teu.
Sem ti recordo umas quantas coisas que faziam de mim alguém diferente contigo. Na pressa dos dias, até podia enviar a mesma mensagem todos os dias, "Bom dia [inserir nome artístico]. Já estou a ir para X". sem estar a ornamentar com o quão maravilhoso e único eras na minha vida. Contudo, sabe, e acho que sabias bem, que de cada vez que te enviava esta mensagem dizia quão aconchegada me sentia por te ter na minha vida, por te poder contar, todos os dias, que estava a ir, ou em alternativa, que já cheguei. Era bom perguntar-te "Quando vens?", na certeza de que estavas ansioso por vir. Era bom abrir-te a porta todos os dias e era difícil fechá-la, quando não ficávamos juntos, e ias embora. Não me lembro de um dia em que, mesmo apesar do sorriso e abraço final descontraído, não tenha pedido interiormente que ficasses. Por isso é que gostava de te ver desaparecer no elevador (deixar de ver quando tivesse mesmo de ser), praticamente só de cabeça pendurada para fora da porta quase fechada; por isso é que, às vezes, sem nunca teres sabido, ia para a janela da cozinha seguir a tua trajectória através de candeeiros que parcamente te iluminavam. Um dia, mal sabia eu, apagariam mesmo. E para orientar o meu caminho? Só eu mesma.
