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quinta-feira, 17 de novembro de 2011

O final brilhante "... e foram felizes para sempre"


Do baú de 2006

Deixo-me afundar lenta e suavemente. Seduz-me o facto do meu corpo estar a ser consumido sem que eu o sinta. Atrai-me a ideia de que a água irá admirar  as minhas imperfeições como jamais alguém fez, inundando-as como inundaria um corpo perfeito.
Permaneço imóvel e tento esvaziar… Despejar na água corpo e mente de modo a sentir a leveza do nada, mas os gritos furiosos da água que corre entre os canos da desgastada torneira perturbam-me... Aproximo-me. Tento escutar, sentir, desvendar como é que a vida grita em alma alheia. Mas aí paro, assusto-me e sou esmagada pela tristeza angustiante do meu olhar reflectido na torneira… 
Sinto vontade de me afogar na vontade secreta de ter mais de ti, de fechar os olhos e viver para além daqui, onde ninguém me vai punir e onde tudo se vai consumar em beijos de céu… 
Viver… Não. Viver não se limita a isto. Não é chegar a cara ao pé de um vidro e ele embaciar, não é encostar a mão ao peito e sentir algo bombear sangue para 50 kg de carne! É sentir que realmente vale a pena… É sentir. Sentir que alguém iria estar lá para rir com a facilidade que embaciamos o vidro, desenhando o que sentimos nesse mesmo vidro e com isso fazendo disparar uma gargalhada ou, em alternativa, para nos dar a mão enquanto encostamos a mão ao peito, e, mesmo sem falar, dizer que notaria se aquele coração parasse. E nestes momentos desejo profundamente que a vida seja sempre como as histórias infantis: no meio de algum drama, o final brilhante, “… e foram felizes para sempre…”.


quarta-feira, 16 de novembro de 2011

Amanhecer a troco de um rebuçado

Mais uma vez do baú de 2005

Sôfrega, corro para o ponto de encontro habitual. Caminhar de madrugada, ainda ensonada, faz-me sentir os pés recuar, mas a minha alma avança, cega, surda, inocente, esquecendo a dor física e inventando algo transcendente para me dar força…
O coração não me bate no peito, bate na garganta, rebenta descaradamente...
Quero-te assim… Só para mim…
Pelo caminho queimo as últimas histórias tristes, retomo as pegadas apagadas, e lembro-me que ainda existes. A poeira da estrada faz-me cega… Cega à sorte que nos quer condenar à morte. As cores que distingo vão-se transformando em sombras, sombras que mesmo assim ficam comigo para sempre, e marcam quem sou e quem és. Desenham os contornos do que sonhei para nós, tão depressa como os destroem, e o vento leva-os como restos do nada que nos derrubou e do tudo que ainda se sente em nós.
Quero-te assim. Só para mim.
Paro por momentos, e sinto a respiração profunda que só tu conheces, pausada mas ao mesmo tempo com uma pontinha de angústia e aí, enfrentando toda a dor e falta de clareza daquela estrada, sei a razão pela qual caminho e sempre caminhei na nossa direcção: o amanhecer pinta radioso o céu, e queima a minha pele. A luz do dia ostenta todo o sentimento que não me deixa parar, o segredo dos que correm, sem nunca se cansar. Na verdade, o amanhecer é o rebuçado que me vais dar quando virar esta esquina e o sorriso com que me vais brindar ao dizer bom-dia. O amanhecer passa a anunciar um resto de dia delicioso…O resto do dia vai passar lentamente, com a mesma calma com que desembrulho o rebuçado, com o mesmo prazer que sinto quando o saboreio assim, ao pé de ti.

segunda-feira, 14 de novembro de 2011

"Feia" é a tua forma favorita de me chamar

Vou começar a arrancar algumas histórias do baú. Esta veio do baú do ano de 2005.

"Feia" é a tua forma favorita de me chamar. De me chamar com os lábios fugitivos, contorcidos e apertados, e de olhos quase a sair das tuas órbitas e prontos a abraçar a minha órbita. Segues depois, desengonçado, voltando-te apenas para me dirigir um sorriso cúmplice e traquina e um olhar de soslaio.
Mas eu adoro. Adoro quando estás frente a frente comigo, só tu e eu, e mal consegues articular uma sequência de palavras, mal consegues terminar uma frase, mal consegues dizer o que se passa contigo...  E hoje, eu prometo. Não vou amuar quando me chamares feia, e fugires apaixonado, talvez com medo de nem mais uma palavra conseguires pronunciar; com medo de quebrar o tempo e ficar... Ficar aqui, comigo. Sempre. E hoje, eu também sei que me chamas feia como que não querendo que mais ninguém olhe para mim, para que mais ninguém queira sequer mais um bocadinho, qual pedra preciosa, trevo da sorte ou amuleto secreto escondido no canto de um bolso empoeirado. Empoeirado, mas o mais rico: o mais importante, o mais protegido, o mais sagrado.

Hoje, eu concordo com a tua forma favorita de me chamar. E prometo, não conto a ninguém o segredo que tu tens como sendo só teu, num mundo que eu sei que também é meu.
 
Zoey Dechanel