A paixão é um sentimento desgraçado e desgastante que tira a fome, a sede, cenas, e, mais importante, tira a racionalidade e uma pessoa sente-se por súbitos momentos a embrutecer, mas até parece que quer. Não sei, portanto, porque todos desejamos tanto este sentimento.
Tão depressa uma pessoa anda a pular nos alpes verdejantes e a cantar o ó-la-ré-i-u como está em tensão mórbida na dúvida se a outra pessoa gosta tanto como nós, quer saber tanto como nós, pensa tanto como nós, mesmo que nós próprios não saibamos exactamente onde estamos e se queremos. E não é um pensar suave, é um pensar que deixa ali os sentimentos encravados no pescoço. Por causa de uma mensagem que não chega. Por causa de uma mensagem que chega e uma pessoa está ali segundos que parece que viram horas a desejar que seja daquele remetente e que não é e ai-caraças-que-não-é-ninguém-afinal-é-só-mesmo-o-alarme-do-telemóvel. Por causa de uma pessoa que não se vê e cujo paradeiro vira o maior mistério do universo. Por causa de uma entidade que por não nos falar durante duas horas já parece que se esqueceu eternamente de nós (falo-não.falo-falo-oh.evidentemente.que.não.falo-falo-não.controlo.me.muito.bem.e.não.falo-falo-ó-já-falei-possa-nem-sei-porque-estou-a-fazer-tanta-ginástica-mental). Mais do que tudo pelo esforço de sentir tudo isto e fingir que está tudo bem e que nada se passa quando bem por dentro o mundo é e deixa de ser um espectáculo por vezes numa questão de segundos.
Fundamentalmente a paixão é um sentimento desgraçado porque é aquela coisa sem destino, que tantas vezes se explora até ao tutano ou até não haver mais lenha por onde arder. Pior é precisamente quando somos a lenha a desaparecer devagarinho e não somos o fogo inebriante a aquecer o outro.











