Para aprender a conhecer-te melhor preciso de saber para que lado dormes, a marca do teu dentífrico, quais os teus iogurtes favoritos. Preciso também de mais fotografias, embora não as vá ver por agora. Ver-te distrair-me a cabeça com coisas indecentes. Tiveste sarampo em criança? Alguma vez foste o pior aluno da turma? Quantas vezes caíste da tua primeira bicicleta? Envia-me, por favor, também observações, mesmo que não te pareçam pertinentes, descrição de insónias, pesadelos, pensamentos recorrentes, recordações de criança. Podes igualmente falar-me dos teus amigos, colegas e vizinhos, embora vá saltar essa parte. E do quarto onde sonhas comigo muito acordada. Por agora chega.
in A Rapariga Errada, Pedro Paixão
Importam-me os detalhes. As perguntas abertas e absurdas. As perguntas que tantas vezes parece que não interessam para nada. As perguntas que mais do que factos me dão vivências e experiências de uma pessoa, que me levam a sabê-la como ela se conta e não como alguém a poderia contar. Por isso é que me agarrei tanto a este excerto... Por isso e porque fala daquela paixão e curiosidade insaciável pelo ser humano que ainda há dias aqui escarrapachei.





